07/06/2021
ENTREVISTA EXCLUSIVA: Alexandre Carlo do Natiruts fala sobre novo lbum, carreira da banda e muito mais!
 


Com uma carreira consolidada internacionalmente, o Natiruts acaba de lanar o novo lbum Good Vibration Vol. 1 repleto de super participaes. Alexandre Carlo, vocalista e compositor de inmeros sucessos da banda, nos concedeu uma entrevista exclusiva pra falar sobre as novidades e muitos outros assuntos sobretudo do momento em que vivemos no Brasil.

A ENTREVISTA




(Assista ou confira abaixo a transcrio da entrevista.)

Rafael Costa: Obrigado por ter aceito convite. Preparamos algumas perguntas, espero que voc curta a entrevista.
Alexandre Carlo: Vai ser timo, bom falar para um veculo de Reggae, so muito poucos e geralmente a gente fala para veculos que tratam de tudo. bom para falar para o pblico mais especializado assim em reggae tambm atravs de vocs.


(Capa do lbum Good Vibration Vol. 1)


Rafael Costa: Nesse lbum que vocs acabaram de lanar, Good Vibration Vol. 1, vocs trouxeram vrios compositores, alm das suas msicas prprias, algumas em parceria. Nos ltimos anos a gente que acompanha bastante o trabalho do Natiruts sabe que vocs fizeram vrias parcerias internacionais tambm como Ziggy Marley, Morgan Heritage, SOJA, Pedro Cap, Macaco, Debi Nova, Julian Marley, Wailers, Katchafire e vrias outras. Como que vocs definem essas parcerias? Voc acha que artistas brasileiros do Reggae deveriam investir mais nesse tipo de colaborao tambm?
Alexandre Carlo: Ah, sempre bom voc expandir suas fronteiras. No caso do Natiruts foi a msica da banda que chegou, sempre assim. O Reggae, at nos Estados Unidos e obviamente aqui no Brasil tambm, no tem o seu devido espao reconhecido na grande mdia. Ento acaba que os artistas chegam mais atravs das suas canes do que propriamente de uma estratgia de marketing ou de algo assim. O Natiruts hoje se diferencia, claro, porque teve muitos sucessos que transcenderam o reggae e voc acaba se tornando uma banda no mbito pop, no melhor sentido da palavra pop (popular). Ento, essas parcerias surgiram quando o nome do Natiruts havia crescido fora do pas, e a a gente: P vamos convidar o Ziggy Marley?.

Quando chegou a notcia para ele que teria uma cano, ele j conhecia a banda, no profundamente, mas j tinha ouvido falar e isso causa nele um interesse natural de pelo menos ouvir o som que est sendo enviado para ele. Acho que todo mundo sabe, ele deve receber centenas de mensagens de proposta de parcerias porque se trata, na minha opinio, do maior artista de reggae da atualidade por dois fatores: o primeiro o legado que ele carrega por ser o primognito de um dos maiores artistas da humanidade, no s do Reggae, e depois pelo trabalho dele que muito interessante. um trabalho que me influenciou, no diretamente pelo som, mas pelo conceito, que justamente o que eu procuro dentro do meu reggae: fazer um reggae autntico mas sem se distanciar do formato original, seno no seria reggae... mas sem pudor, n? Sem o medo de inserir diversos elementos diferentes dentro dessa msica que o Ziggy Marley faz. Com o Julian, com os Wailers, enfim, a mesma coisa. Todos eles j tinham ouvido falar do Natiruts.


(Clipe de "Ela")


Agora que a gente publicou a msica Ela", que inclusive do baiano Dja Luz, o Third World comentou. Ento, o fato da msica do Natiruts ter chego l nos ouvidos dos caras, facilitou essa conversa entre eles. Esses featurings, em relao a artistas no-reggae como Macaco, como Pedro Cap, tambm seguem essa mesma lgica, da msica do Natiruts que saiu do Brasil e hoje est em vrios lugares por a, no conhecimento de vrias pessoas.

Segunda parte da sua pergunta, eu acho que sempre interessante as bandas de reggae nacionais investirem sim nesse ambiente de poder fazer um featuring com artistas internacionais, porque o seu som fica conhecido do pblico desses artistas, e interessante para esses artistas tambm para serem conhecidos no pblico das bandas locais.

Rafael Costa: Sim, faz todo o sentido.

Fabiane Almeida: O lbum que acabou de sair, o Good Vibration Vol. I ser acompanhado do Vol. II em 2022? Existe algo que j possa falar sobre esse novo projeto em primeira mo, algo que possa revelar?
Alexandre Carlo: Sim, esse projeto vai se chamar Vol. II e no vai ter outro nome diferente, apesar de ser um lbum diferente. O nome foi porque as canes que vo estar nele so muito conectadas com este de agora. A maioria foi feita do zero ou terminada durante a pandemia. Como j temos mais ou menos umas 7, ento, com as 9 desse j do 16 canes. Muita msica, ento a gente resolveu divid-lo em Vol. 1 e Vol. 2 e vai seguir a mesma tendncia desse de vrias participaes.

J temos alguns. Geralmente os nacionais so com artistas que j demonstraram alguma relao de afeto pelas canes, pelo trabalho do Natiruts, ou alguma influncia maior como o caso do Melim, da Iza, etc. J temos dois que j gravaram as vozes e tem uns outros 4 ou 5, dentre eles, trs gringos. A gente s pode confirmar mesmo depois da voz gravada, n? Ento por enquanto no iremos divulgar os nomes.


(A banda Natiruts no incio da carreira)


Rafael Costa: Alexandre, a gente vem passando por vrias mudanas ao longo desses anos e o Natiruts uma banda que j tem uma estrada longa e que passou por essa transio tambm. Durante essa transio, alguns tipos de mdia, como o prprio CD, tem cada vez mais ficado raro, desaparecido. Outras mdias tm ressurgido, como no caso do Vinil. O Natiruts e muitas bandas tm focado os ltimos lanamentos nas plataformas digitais. Voc no acha que com isso as bandas acabam no deixando de atingir um certo percentual considervel do pblico que preza pelo material fsico? Ou que no, necessariamente, tem acesso s plataformas digitais, principalmente as pagas?
Alexandre Carlo: Bom, em relao a parte econmica. Acredito que o CD comeou a sumir ali nos meados dos anos 2000, e tinha uma mdia de valor de R$30 ou R$40. Ento eu acho que nesse ponto, da parte econmica, o acesso melhorou, porque hoje voc assina um Spotify por mais ou menos o mesmo valor, porm te d um acesso a um acervo de mais de 50 milhes de msicas e uma infinidade de artistas.

Na parte do artista acho que no mudou muito. No CD, o artista j no era remunerado to grandemente, a no ser que fosse independente. Mas na poca, em contrapartida, mesmo sendo independente voc no tinha a internet, ou seja, sua venda acabava sendo limitada porque a visibilidade era bem limitada. O acesso do grande pblico era rdio ou televiso, ento, para os msicos, est mais ou menos a mesma coisa em termos de viver de msica, no sentido de lanar uma msica no mercado e receber de forma justa por isso.

Mas no sentido da divulgao melhorou enormemente na minha opinio. Hoje voc tem YouTube que as pessoas podem acessar gratuitamente, bastando ter uma internet ou at pagando um tempo numa lan house.


(A era dos streamings)


Num contexto geral, eu acho que a coisa ficou mais democrtica hoje para o pblico ter acesso s msicas e aos artistas. Tem que pagar, claro, tem que pagar, e voc vai pagar a R$30, R$40 para ter um Spotify, mas com o preo dessa plataforma - e outras similares - voc comprava antigamente apenas um CD. Se considerar o disco pirata, que custava por volta de R$ 10, mesmo assim voc teria no mximo 3 ou 4 CDs, ento, de qualquer forma, eu acho que melhorou bastante nesse sentido. Eu acho que movimentou bastante a cena independente por isso, pelo YouTube e pelas plataformas de streaming.

Num conceito mais macro, eu espero que ano que vem a gente tenha uma melhora nesse Governo do pas. Quando o pas estava mais equilibrado em todos os sentidos, tivemos uma srie de avanos com a nossa pequena empresa, a Zeroneutro. Mesmo o Natiruts j sendo grande, realizaes como aquele DVD em cima da montanha hoje seriam praticamente impossveis, e no me refiro somente a pandemia. A alta do dlar, da gasolina, enfim, realizaes dessa magnitude passam a deixar de existir porque as contas no fecham. A gente espera que isso melhore e a gente retire essa pauta Bolsonarista, porque s est favorecendo grandes corporaes... um pessoal da elite mesmo.

Rafael Costa: Beleza. A gente tem at uma pergunta sobre isso depois aqui, mais adiante.

Fabiane Almeida: A banda j consolidada e alcanou muita coisa na carreira nacional e internacional. Voc tem algum tipo de meta desenhada para os prximos dois, trs anos ps pandemia?
Alexandre Carlo: No. A meta lanar o Vol. 2 e retomar os shows. Todo artista que voc perguntar, ou a grande grande maioria, vai dizer que o sonho o palco. Quando o cara est no comeo da banda, ele lana um disco desejando que esse trabalho seja recebido por um nmero X de pessoas, e que faa com que seja possvel ele ter um sonho de estar num palco. Seja com 500, 1.000, 3.000, 10.000 ou 20.000 pessoas cantando as suas canes. Ele quer viver disso dignamente. Apenas por isso, qualquer artista de verdade estaria satisfeito. Ento esse o plano pra ano que vem: retomar realmente as turns.

Em 2020, a gente tinha uma grande turn internacional j marcada com 11 shows nos Estados Unidos, e pela primeira vez com uma agncia americana. Iramos tocar no CaliRoots, que um dos maiores festivais de l. Por estar tudo to incerto no pas, ns at cancelamos. No d para firmar compromisso sem saber se vai conseguir cumprir. Em resumo, o plano mais certo que queremos voltar a realizar os shows, to logo isso for possvel.


(Alexandre Carlo trabalhando em estdio)


Rafael Costa: Uma outra coisa que a gente observou nos ltimos anos que vocs intensificaram bastante as apresentaes em outros pases, como essa prpria turn que voc falou e sobretudo shows na Amrica Latina. Voc passou tambm a produzir muito mais material em espanhol. Quais foram os principais desafios que vocs e os outros integrantes passaram nesse processo de alcanar esses mercados de uma forma mais frequente e dedicada?
Alexandre Carlo: Como eu respondi anteriormente, tudo comea com a fora das canes do Natiruts. Primeiro quem chegou l no Chile, na Argentina, foram as canes. Depois que elas chegaram, a gente recebeu ligaes do Chile... da Argentina: Fulano, queremos fazer um show aqui!". Porque tem um pblico aqui interessado, etc, sendo, geralmente, produtoras independentes.

como acontece no reggae aqui no Brasil: produtoras independentes que trabalham com as bandas que esto comeando. Foi a mesma coisa com o Natiruts que j era grande aqui no Brasil, mas l em 2005/2006, em termos de estrutura, estava comeando ainda. E fomos l n, naquele esquema reduzido, tocamos em lugares para 500 pessoas e divulgando da melhor maneira possvel. A primeira vez da gente no Chile foi num pub para 300 pessoas, e fizemos dois dias l. Na Argentina j foi uma surpresa. Foi numa casa chamada Niceto Club. Chegamos l no dia do evento, esgotaram os 800 ingressos, que o que cabe na casa. Da abriram outra data e esgotaram os outros 800 tambm no dia.

A gente chegou a fazer um terceiro que deu meia casa, ali 400/ 500 pessoas. Ento isso, a nossa carreira internacional muito pela fora das canes, no foi muito por um milagre de algum projeto de marketing que tenha sido feito ou algum investimento de algum. Foi bem natural. Como vocs sabem, foi assim aqui no Brasil tambm. Em Salvador, por exemplo, vocs que so mais jovens do que eu, no sei se vocs pegaram como a msica chegou a. Foi atravs da fitinha K7, e depois por intermdio muito da banda Diamba, que foi a primeira a divulgar realmente o nosso trabalho por a tocando algumas canes nos shows deles. Eles j tinham um pblico e, mesmo sendo independentes, j era bem grande. Eles j lotavam o antigo Cine Rio Vermelho, uma daquelas casas icnicas do reggae do anos 90.

Rafael Costa: esse mesmo o processo. Eu at acompanhei um pouco disso de alguns pases em que estive com algumas bandas, trabalhando com as atraes internacionais e as pessoas, como voc disse, os produtores, produtoras, sempre perguntavam pelo Natiruts. Tanto pela Amrica Latina, como Europa e outros lugares. As pessoas sempre tinham muita curiosidade. Eu acho legal vocs terem alcanado isso ao longo desses anos, essa importncia e relevncia... ento, parabns pela trajetria.

O reggae continua realmente segmentado no Brasil e demora bastante pra despontar uma nova atrao nacionalmente. Voc, sendo vocalista de uma banda to relevante e abrangente como o Natiruts, tem alguma dica que poderia compartilhar com novos artistas que tm interesse de seguir uma carreira no reggae no Brasil?

Alexandre Carlo: difcil voc falar de dicas, mas acredito que a melhor delas gire em torno da msica. Procurar ter um bom arranjo, ter um bom show, ensaiar direitinho, pensar nas transies, trabalhar com afinco na hora de gravar mesmo com as dificuldades de recurso, enfim, buscar a maior e melhor lapidao daquilo que realmente interessa: a msica.

Segundo o Quincy Jones, que produziu Frank Sinatra e Michael Jackson, estrelas indiscutveis da indstria fonogrfica, tudo o que fazemos em relao ao trabalho em cima da carreira e da msica correspondem a 70% da coisa toda. Os outros 30% so coisa que a gente no controla: aonde a msica vai chegar, para quais pblicos, se essa galera atingida vai realmente se identificar com o som, etc. Por esse motivo que to difcil falar de "dicas". No tem uma frmula... mas CERTAMENTE trabalhar com amor e muita dedicao em cima da sua msica ir maximizar as possibilidades de sucesso.

Agora eu posso falar tambm em termos de conceito. Essa uma viso minha. Eu acho que muitas bandas de reggae da minha gerao, excelentes grupos, ficaram pelo caminho... mas no de uma forma pejorativa. Eu digo de ficar pelo caminho porque, como admirador de vrias que vi nascerem nos anos 90, deveriam estar na ativa at hoje. que se prenderam muito na coisa do pudor, aos conceitos "Roots" e estticos dos anos 70 por uma ideologia que foi criada dentro do Brasil de que se voc no fizesse aquele reggae, daquela forma, voc estaria perdendo a essncia ou estaria manchando a imagem do reggae. O prprio Bob Marley no final dos anos 60 e incio dos anos 70 j estava modernizando a msica jamaicana, rompendo com o antigo modelo do ska. Digo rompendo num bom sentido, porque todos gostavam do ska, mas eles estavam buscando algo novo... algo diferente.


(Alexandre sem os dreads, mas com o mesmo sucesso)


Voltando aos anos 90, dentro deste conceito, o movimento como um todo poderia ter buscado algo novo tambm... se adaptado novas tendncias. Ainda bem que este conceito est caindo por terra e vejo mais bandas buscando algo diferente, sem se preocuparem muito com esses conceitos restritivos. Eu mesmo quando enchi o saco dos dreads, logo cortei. Claro que fui criticado, que eu tinha virado "POP" e tal. A comecei a tocar com aquela camisa da Lacoste, justamente para provocar esse pblico e mostrar para eles que a indumentria pouco importa... o reggae no voc colocar um cachecol verde, amarelo e vermelho e fumar um baseado no clipe. Isso uma questo muito sria que foi levantada por Bob Marley e que, muitas vezes, os artistas acham que so mais autnticos que outros por fazerem isso.

O Rastafari uma questo muito sria e, mesmo respeitando muito, eu no sou... eu no vivo... e no queria que meu som parecesse falso por este motivo. Por respeito aos caras, eu fao o meu som, do meu jeito e com as coisas que eu vivencio. por esse motivo que eu acho que o reggae de hoje est bem melhor. Cada um faz o que bem entende com sua carreira e som, pois as pessoas esto cada vez mais ligadas com a essncia, nas atitudes, ou seja, a parte prtica da coisa. Nestes 25 anos de Natiruts, voc no acha uma polmica sequer, pois sempre vivemos cada fase da forma mais sincera possvel... sincera e coesa com o que acreditvamos em cada fase dessa caminhada. Isso, para mim, ser reggae music.

Fabiane Almeida: Eu acho que tem at a ver com o que voc tava falando agora em relao trajetria da sua carreira toda nesses 25 anos. O que mudou em Alexandre Carlo desde a poca do lbum Nativus, h 24 anos, para o ltimo trabalho de agora, o Good Vibration Volume 1?
Alexandre Carlo: Mudou muito a experincia de vida. Isso mudou bastante! Aquele primeiro disco era doce, por exemplo. Eu comecei a compor aquele disco em 93, antes de conhecer os primeiros integrantes. Inclusive, a ideia, a idealizao do conceito do Nativus foi minha em 93/94, que era fazer uma banda de reggae misturado com msica brasileira, e s depois eu comecei a formar a banda, ou melhor... eu no formei, e sim destino foi se encarregando de unir as peas necessrias para o comeo da caminhada.

Como disse, no comeo eram msicas doces... pois tinha apenas 20 anos e no tinha passado por coisas ruins, praticamente nenhuma coisa muito ruim na vida at a morte do meu pai. Outras pessoas queridas foram fazendo suas passagens e no tem jeito, aquilo vai mudando voc. Teve tambm momentos do mundo te decepcionar e, claro, de voc tambm decepcionar o mundo. Isso vai te deixando "cascudo" com a vida, e o desafio acaba sendo impedir que essa "cascudez" no interfira negativamente na sua msica ou na sua vida. Encarar esse mundo duro sem perder a espiritualidade ou a positividade , na minha opinio, a maior marca do Reggae, que conecta com o Rastafari. Eu acho bacana, no a parte dogmtica, religiosa, mas a parte dos conceitos ancestrais, da Etipia ancestral, at da Kemetic Yoga, que agora t voltando bastante. Essa coisa da Sade Mental e do Positive Vibration em seu mais verdadeiro conceito, que mesmo atualmente deturpado como aconteceu com o cerne do movimento hippie e punk, so essas camadas turbulentas que nos fazem evoluir como seres humanos.

Rafael Costa: Isso a. A gente tem mais duas perguntas aqui. A prxima tem a ver com aquela questo que voc falou sobre a poltica, que a seguinte: muita gente tem criticado a classe artstica do Brasil por ficar em cima do muro diante do momento que estamos vivendo, de autoritarismo e tudo mais na poltica. Voc uma das pessoas que sempre se posicionou, no de forma partidria, mas sim contra algumas coisas que so realmente inaceitveis e acredito que tambm tenha pago um pouco esse preo, porque vrias pessoas comearam a te criticar. Voc acha que a classe artstica tem essa responsabilidade de fazer as pessoas refletirem sobre esses assuntos? Qual sua viso sobre o momento atual do Brasil? Voc acha que a classe artstica deveria abraar mais a causa e se posicionar em relao a tudo isso que est acontecendo no Brasil hoje?
Alexandre Carlo: Olha, a gente no pode generalizar a classe artstica. A classe artstica nacional muito ampla. Tem parte da classe artstica que vota num nmero, no vota no candidato. Ele vota naquilo que vai ser bom para ele individualmente, no tem muito essa questo coletiva. Ento, se tem um candidato que a pauta dele melhorar as condies para o agronegcio, liberar um monte de agrotxico, flexibilizar as leis ambientais e desmatar tudo para a sua fazenda aumentar, te enriquecendo ainda mais e tal, tem uma PARTE da classe artstica que, por questes pessoais, partidria disso. Tem outra parte que mais combativa em relao aos direitos das periferias. Tem outra classe artstica, que eu acho que mais a do Reggae, cuida mais da espiritualidade e da sade mental das pessoas... da educao. E educao no s voc ensinar s pessoas que 2 + 2 igual a 4. Educao voc falar de amor ao prximo, de unio. Voc est criando uma juventude colocando conceitos de empatia, de saber que o mundo no s seu, e que, de repente, uma coisa pode at te beneficiar, porm vai prejudicar muito o prximo.


(Um pas rachado por um desastre poltico)


Nessa ideia voc passa a enxergar seus prprios privilgios e entender que aquela pauta governamental no bem para voc, mas sim para uma galera que aguarda desesperadamente por uma melhora de vida. Ento isso que o reggae, na minha concepo, faz. Eu no abandono a minha concepo original... pode acabar o mundo que eu vou estar falando sempre de "Good Vibration", porque eu no sou oportunista, no comecei a falar disso agora. Eu falo disso h muito tempo e de forma muito coerente. Eu acho que cada artista tem direito de falar o que acha e o que deve, na hora que deve, porque nem todo mundo sabe lidar com polmicas. Tem artista que pega uma polmica e faz uma limonada, seja ele de direita ou de esquerda. O cara mata no peito transforma aquilo numa coisa gigantesca, que acaba sendo bom at para carreira dele. Tem artista que com uma polmicazinha j no dorme uma semana, fica em depresso, sai do YouTube, sai do Instagram, como aconteceu com a menina Ludmilla, por exemplo, que sofreu ataques racistas e teve que se desfazer da rede social dela.

Ento, como que voc vai exigir da Ludmila que ela fique ali diariamente falando (digitando) combatendo os chamados bolsominions, vamos dizer assim, n? A ala bolsonarista e tal. Ela vai morrer? O que que ela vai fazer? Vai se suicidar em prol de um post? Ento bastante complicado esse Brasil. Eu acho que o artista tem no s a funo de denncia, ele tem a funo tambm de educar. Eu vejo artistas que no tm muito essa veia da denncia, talvez justamente por no se darem bem com o que isso acarreta para a sua vida pessoal. Eu vejo que eles so muito atuantes na parte da educao, na parte de serem conscientes em suas canes e das mesmas terem alguma mensagem, seja ela positiva, seja ela educativa. Um exemplo o Carlinhos Brown, do qual eu sou f e de qual eu admiro muito o jeito que ele se posiciona em relao Negritude, que pode no ser uma Negritude combativa, militante e direta, mas se voc for ver muito real e muito importante.

O Carlinhos Brown j tirou mais de 15 mil pessoas da falta de emprego, da informalidade, colocou dentro do meio musical por intermdio de um projeto maravilhoso que ele tem, mas ele no um cara que fica "militando" em rede social. A gente tem que entender que existem vrios tipos de manifestaes e existem vrios tipos de personalidades. Tem pessoas que so mais combativas, tem pessoas mais tmidas, tem pessoas que diante de um ataque a negros, por exemplo, j ia se alistar para ser linha de frente no combate. O outro mais tmido, mais tranquilo, mas entende pra caramba de matemtica, de fsica e trabalharia na rea de tecnologia dentro do laboratrio, e seria to importante quanto esse cara mais combativo. Esse conceito de unio de mentes, particularidades e personalidades que julgo ser o mais importante, no s dentro da negritude, mas dentro dessas pessoas que acreditam que esse projeto bolsonarista tem que ser derrotado em 2022. As pessoas mais combativas dificultam esse discurso, essa aproximao. Temos que entender que quem partidrio de Bolsonaro acredita de corao em tudo, ento se os argumentos so rspidos e contrrios, pouca coisa boa ser aproveitada dessa comunicao. Um discurso mais educacional, neutro e claro pode sensibilizar muito mais as pessoas afetadas pelas fakenews bolsonaristas.

O Bob Marley tinha muito isso. Voc no v o Bob Marley se comunicando com agressividade. As letras dele so sempre explicativas:

...ns plantamos o milho, ns construmos as penitencirias e eles nos colocam l dentro depois para sofrer. Voc v? claro, direto, mas no atacou nenhum daqueles dois que ele uniu (em referncia a Michael Manley e Edward Seaga no One Love Peace Concert). Talvez ele tenha feito a cabea de milhares de pessoas de uma forma ldica, de uma forma consistente, mas no era, vamos dizer, agressiva... combativo at, mas no agressivo. preciso ser espiritualizado para fazer isso, mas - acima de tudo - inteligente. Ento eu tento n, eu tento fazer isso de uma outra forma, pois no sou o Bob Marley, ningum vai ser o Bob Marley.


(Bob Marley unindo as mos de polticos rivais)


Fabiane Almeida: A Bahia sempre teve uma admirao pela banda, e Salvador uma das capitais onde o Natiruts extremamente querido. Nesse mais recente lbum teve uma composio do Dja Luz e a participao e composio do Carlinhos Brown, como voc falou nesse instante... alm do Denny Conceio que toca percusso na banda. Como voc resumiria a relao do Natiruts com a Bahia, com Salvador, e nesses anos todos de carreira tambm que sempre foi muito forte?
Alexandre Carlo: Eu acho que por Salvador ser uma capital em sua maioria negra, culturalmente isso t no cotidiano da cidade. muito legal essa coisa do reggae ter uma origem baseada no negro jamaicano denunciando as atrocidades de um sistema opressor e, ao mesmo tempo, quando esse movimento passa a crescer e se edificar, a mesma cultura tira os negros da precariedade, da misria, gera empregos, etc. Ento muito importante essa ferramenta, e a gente fica muito feliz de saber, porque Salvador, na minha opinio, tem uma histria de reggae de criao, n? A parte intelectual e de criao do reggae, diferente do Maranho que consome mais as radiolas, a cultura dos DJs, enfim, que mesmo muito importantes no movimento como um todo, so msicas regravadas da Jamaica. Salvador no. Salvador tem um movimento ativo de bandas, e um histrico de composies que narram a realidade do povo negro de Salvador e de todo o povo soteropolitano desde os anos 70. Ento, legal a gente ser uma banda de fora (brasiliense) e saber que nossas canes tm coerncia com essa cultura, que a cultura de origem do estilo.

Rafael Costa: Massa. Alexandre, a gente gostaria de agradecer ento pela entrevista e desejamos todo sucesso a vocs. Espero que a gente possa se encontrar em breve a pelos palcos do Brasil e fora dele tambm, n? Deixamos o espao livre pra sua mensagem final e tamo junto! Obrigado mesmo por ter tirado esse tempinho a para falar com a gente.
Alexandre Carlo: Obrigado a vocs tambm e parabns pelo canal que eu acompanho h anos. Eu morava em So Paulo e j acompanhava o Surforeggae. E a mensagem, nesse pas, nesse caos pra gente cuidar da nossa energia interior. Aquela falada Positive Vibration. Nos momentos de caos a gente passa a no acreditar muito nessas coisas de positividade, porque a negatividade quer justamente isso mesmo, que a gente passe a no acreditar e fique naquela regio de desconforto, de desespero e depresso. Quanto mais a gente se afunda nisso achando que vai melhorar as coisas, no... s vai piorar. Ento, essa a primeira mensagem que eu tenho.

A segunda mensagem no para as pessoas que no acreditaram no discurso do Bolsonaro, at porque voc viu que a coisa s piorou, n? Minha mensagem para 2022 para voc que ACREDITOU naquela pauta bolsonarista, essa coisa de "temos que acabar com tudo isso da", que no iriam se alinhar com Centro, que no iriam fazer a "velha poltica" e todas aquelas mentiras que, talvez, tenham sido o motivo de fazer voc votar no Bolsonaro. Apenas mude de ideia. Mude, e quem sabe assim a gente o derrote. No estou falando pra voc votar em esquerda, pode ser um outro candidato qualquer, mas que a gente realmente derrote esse governo irresponsvel, nitidamente IRRESPONSVEL.

O desejo que possamos prosseguir, que possamos retomar a nossa democracia, de ter um lder sensato, seja ele de direita ou de esquerda. Um governo que saiba respeitar a cincia e o Ministrio da Sade como fez o governo de direita do Fernando Henrique na crise da AIDS, ou mesmo o mandato de esquerda do Lula / Dilma que enfrentaram o H1N1 sem serem desconexos com as orientaes mundiais de enfrentamento. No houve por exemplo diante do surto da AIDS orientao para as pessoas transarem sem camisinha e nem a sugesto de um tratamento precoce no regulamentado. Fora a desvalorizao da nossa moeda frente ao dlar, gasolina a saltos constantes de aumento dentre outras atrocidades, que infelizmente decaem sobre os menos favorecidos do pas. S isso j argumento suficiente pra gente seguir em frente e tirar esse cara do poder em 2022. Um abrao a todos!

OUA O NOVO LBUM NA NTEGRA



Fonte: Equipe Surforeggae

Natiruts

Clique e saiba tudo sobre Natiruts aqui no Surforeggae. Discografia, notcias, msica e muito mais.





'Natiruts'


I LOVE! Natiruts lana seu oitavo disco, que enaltece o amor com todas as foras! Oua!


I LOVE! Natiruts se prepara para lanamento do prximo disco e lana dois novos singles! Oua!


SEREI LUZ! Thiaguinho e Natiruts pregam a paz em parceria musical indita! Assista o clipe!


REGGAE ROAD! Dada Yute, Natiruts e Digitaldubs no segundo episdio da srie! Assista!


NDIGO CRISTAL! Natiruts estremece o Espao das Amricas em lanamento do novo disco!


Gravado na Chapada dos Veadeiros, Natiruts lana segundo clipe do lbum ndigo Cristal!


SOL DO MEU AMANHECER! Natiruts lana clipe e anuncia turn sulamericana! Assista!


MALANDRINHA! Parceria entre Natiruts e Edson Gomes rende mais um videoclipe! Assista!


Natiruts lana DVD REGGAE BRASIL em Salvador neste sbado! Confira no Surforeggae!


DOU NO DOU! Natiruts regrava clssico de Djavan, j disponvel nas plataformas digitais!






 
Vibraes Rasta
Vibraes
Music Hall in Concert

Third World
(Reggae)


O que voc espera da cena reggae atual?
Que bandas clssicas ressurjam
Que bandas novas apaream mais.
A cena reggae est legal para mim.


Resultado parcial
Historico de Enquetes


   Morgan Heritage
   Chronixx
   DUB INC
   Jah Defender
   Alborosie


   Mateus Rasta
   Igor Salify
   Vibrao Sol
   Andread J
   Be Livin



DESENVOLVIMENTO