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Reggae · 18 décembre 2003

Reggae Made In Brasil! Saiba mais!

Reggae Made
Washington Olivetto perde, definitivamente, um privilégio imaginário: o CD Kaya n´gan Daya está em todas as vitrines. Depois daquela i-na-cre-di-tá-vel entrevista coletiva, anunciou que apenas ele, e ninguém mais - ninguém! -, possuía o CD no qual Gilberto Gil canta o repertório de Bob Marley. E o Fantástico logo corrigiu a lenda da cópia exclusiva, mostrando, mais que o CD, o clip, o delicioso clip de Kaya. Gravado na Jamaica, maternidade do reggae, o clip celebra a alegria dessa música aparentada com o xote nordestino (no ritmo e na levada). E a alegria talvez seja a carga mais poderosa do discão do baiano craque (também) nas versões. No estúdio onde Marley gravava, com o técnico de som, músicos e cantoras que trabalhavam com o mestre, GG apresenta, para uma geração mais novinha, como o reggae pode ser poderoso, quando tudo é consistente: letra, melodia, canção (soma das duas anteriores), arranjo, interpretação. Mas o reggae tupiniquim... socorro! (E também por isso o disco do Gil brilha tanto). Mesmo estando no Brasil o maior território rasta fora da Jamaica - São Luiz do Maranhão -, a maioria do nheconheco reggaeano por aqui é bem desbotado. Ouça Essencial, o oitavo da Tribo de Jah. Ou o primeiro do Planeta & Raiz, o mais recente de Edson Gomes (Acorde, Levante, Lute, que tem até mensagem evangélica!) e... de repente, você tropeça na dúvida: será que coloquei o disco certo ou é uma gozação da turma do Casseta & Planeta? O bichogrilismo mais beabá é desconcertante, às vezes. Mas se um brasileiro realiza um Kaya tão bom, por que será que não temos várias bandas nativas fazendo um reggae made in Brasil de qualidade? Por que o reggae não decola por aqui? “Quem disse que não decola? Está voando faz tempo! Vou dar o nome de três bandas que se fizeram superpopulares (e milionárias) tocando reggae: Paralamas, Cidade Negra e Skank”. (Quem assume a defesa do reggae tapuio é Otávio Rodrigues, pioneiro do apostolado rasta no Brasil. Veja, lá embaixo, a ficha corrida do Dr. Reg). “O que acontece é que as ferramentas que, até agora, utilizamos para saber o que decola e o que não decola deixaram de funcionar direito. Não há como medir vendagem de CDs num mercado tomado pela pirataria. Não há como levar a sério a quantidade de execuções no rádio, quando sabemos que gravadoras pagam para colocar seus artistas nas paradas. Assim, pouca gente fica sabendo que em Porto Alegre, Florianópolis e Curitiba a Tribo de Jah é recebida como se fosse Beatles. Ou que a banda paulistana Planta e Raiz acaba de vender 30 mil CDs em 45 dias. Está fazendo quase 20 shows por mês etc. O reggae corre por fora”. Mesmo acelerando na lateral, Dr. Reg, a audição daqueles três discos... por que será que lembra caricatura, de vez em quando? Tempestade de clichês? “Não sei. Suponho que todas as novas bandas - há muitas e muitas - acreditam estar fazendo um trabalho de qualidade. Pude observar, em alguns shows, que artistas e público se divertem bastante com reggaes tradicionais e letras, digamos, libertárias. É possível que o "fator Bob Marley" tenha algo a ver com isso. Ainda hoje - e talvez como nunca - a maioria das pessoas se aproxima do reggae através de Marley - que parou de compor há 21 anos-, e, então, passa a reproduzir a mesma linguagem. Parece divertido, como eu já disse, ainda que nem um pouco criativo. Deve estar faltando referência, mais pesquisa”. Mas isso não falta a você, não é mesmo, Dr. Reg? Tanto que vive garantindo que o melhor reggae do planeta, atualmente, é feito por japoneses... no Japão. Como o Japão fica longe demais e, atualmente, está muito ocupado com a Copa, talvez todo time brasileiro devesse adotar a receita do Gil, indo gravar na matriz. Seria a única saída, na emergência? “Claro que não. Aqui vai uma lista de 10 bons reggaes feitos no Brasil, por sinal, todos com nosso sotaque: Cidade Negra/Falar a Verdade; Itamar Assumpção/Nego Dito; Caetano Veloso/Nine Out of Ten; Luiz Vagner /Mama África; Ras Bernardo/Tente Você; Baby Consuelo/Sonho Alegre; Paralamas/Alagados; Gilberto Gil/Barracos; Jorge Alfredo e Chico Evangelista/Reggae da Independência; Aquarela Carioca/Top Ten-Baby”. Enquanto o Otávio, o Dr. Reg, não convoca mais uma, duas ou três seleções assim, para fazer um quadrangular, pois é muito pouco para imaginar uma Copa Brasileira do Reggae só com essas dez canções... melhor kayr n¹gan daya com Gilberto Gil. Por enquanto, a taça está com ele. Otávio Rodrigues pesquisa (e gosta muito de) música jamaicana desde o final dos anos 70, criou o primeiro programa do gênero no rádio brasileiro (Roots Rock Reggae, Nova Excelsior FM, 1982), a primeira conexão internacional (Projeto Jamaica-Brasil), a primeira coluna sobre música negra do Terceiro Mundo (Negra Melodia, revista Somtrês, 1983/87), a primeira noite reggae que deu certo em SP (Disco Reggae Night, Aeroanta, 1989/92), o primeiro selo especializado (Reggae’n’Roll, Continental, 1991/92), a primeira dub session (Bumba Beat) e muito, muito mais.

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