Reggae · 09 de dezembro de 2003
ONG luta para mudar imagem dos rastafaris desenvolvendo projetos de inclusão social na Etiópia!
A imagem da cultura rastafari, frequentemente associada aos longos cabelos e à preguiça, está prestes a ser mudada. Em Shashemene, Etiópia,

A imagem da cultura rastafari, frequentemente associada aos longos cabelos e à preguiça, está prestes a ser mudada. Em Shashemene, Etiópia, a ’’terra santa’’ dessa comunidade, a ONG Federação Mundial Etíope (FME) decidiu investir na inclusão social com cursos sobre técnicas alternativas de agricultura e programas de desenvolvimento profissional para adolescentes rastafaris.
Cerca de 100 famílias rastafaris vivem na região, 220km ao Sul da capital Addis Abeba. A adoração pelo lugar tem raízes históricas. Em 1920, Marcus Garvey, criador da Associação Universal de Desenvolvimento do Negro (Unia, na sigla em inglês), anunciou a vinda de um messias, que faria a repatriação dos negros do mundo para a Etiópia.
Acredita-se que Hailé-Selassié, ou Ras Tafari (no dialeto local), imperador coroado em 1930, tinha essa missão. Em 1951, ele doou 500 hectares de terras em Shashemene para negros caribenhos que tinham ajudado o país na guerra contra a Itália (1935). Selassié morreu em 1975, aos 83 anos, recluso em seu palácio. O corpo foi cremado secretamente pelos militares que o haviam deposto.
A FME coordena duas escolas: uma primária e outra secundária e tenta garantir a posse dos 500 hectares para o treinamento e trabalho espiritual. Busca também verbas para o desenvolvimento tecnológico. O projeto foi aceito pelas autoridades regionais, mas ainda não tem o aval do governo federal. "Os programas são um passo na direção certa, porque dão credibilidade a um movimento religioso ainda em formação" - diz ao Lab, Darren J. N. Middleton, professor de religião da Universidade Cristã do Texas.
As condições precárias em que vivem e estudam as crianças rastafaris na Etiópia aceleraram o desejo da ONG de criar um projeto capaz de melhorar a vida delas. "Como rastafaris, somos pró-Etiópia. Não queremos ver nossos irmãos e irmãs na pobreza. Não queremos ver bebês famintos" - avalia Ras Kabinda, dirigente da FME, em declaração ao jornal sul-africano Mail and Guardian.
A boa intenção não barra o preconceito. Muitas pessoas, inclusive etíopes, resumem a comunidade a um grupo exótico de seguidores do cantor e compositor Bob Marley que só dança reggae e fuma substâncias proibidas na maioria dos países. (A maconha é largamente consumida, segundo os adeptos, por sua importância para a ’’meditação’’).
"Estava com meu namorado numa rua em Barbados quando alguém gritou ’’seus rastas imundos’’ - conta, ao Lab, a estudante canadense Joanne Turner, adepta da seita. O movimento não se resume à religião, baseada na liberdade de espírito, na pouca posse material e na rejeição ao mundo dos brancos - considerado a ’’Nova Babilônia’’ da inveja e cobiça. Seus adeptos criaram uma língua única e estudam o Antigo Testamento que, segundo eles, pertenceria aos negros africanos descendentes de Abraão e Jacó. Os cristãos brancos teriam alterado essa leitura para manter os africanos em uma posição inferior.
Os rastas são ligados à terra e têm a preocupação com o outro como base. Buscam reafirmar a história social e cultural africana e acreditam ter obrigação de lutar contra a opressão e a desigualdade. Os dreads (contas) nos cabelos simbolizam a oposição ao capitalismo e são uma representação de Selassié, conhecido como o Leão de Judá.
Categoria
#Reggae